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Crédito cresce, mas a capacidade de pagamento aperta

Publicado em: 12/07/2026 23:59
Crédito cresce, mas a capacidade de pagamento aperta
A semana mostrou que ampliar a oferta já não basta: comportamento, execução operacional, garantias e regras de cobrança passaram a definir a qualidade do crédito. O estoque de crédito do sistema financeiro brasileiro alcançou R$ 7,3 trilhões em maio de 2026, segundo o Banco Central. A composição, porém, mostra um mercado desigual: o crédito direcionado avançou, enquanto o crédito livre — mais sensível à Selic e à avaliação de risco — ficou praticamente estagnado. Ao mesmo tempo, indicadores de atraso, negativação e recuperação judicial continuaram pressionados. Os levantamentos têm recortes, metodologias e datas diferentes, mas apontam para uma mudança relevante: o problema não está apenas no custo do dinheiro, e sim na qualidade com que o crédito é concedido, operado e recuperado. A inadimplência resulta de fatores distintos: perda de capacidade de pagamento, uso de novo crédito para sustentar dívidas antigas, comportamentos de alto risco, falhas operacionais e incertezas regulatórias. Tratar tudo como um único fenômeno produz decisões ruins. A principal leitura da semana é que o ciclo do crédito ficou mais dependente de precisão: identificar a origem do atraso, estimar a recuperabilidade e separar dificuldade financeira de problema operacional. ## A dívida nova está financiando a dívida antiga O crédito em atraso há mais de 90 dias chegou a R$ 247,6 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026, segundo levantamento da FecomercioSP baseado em dados do Banco Central. O valor, descontada a inflação, foi 50,7% superior ao registrado no mesmo período de 2025. Em maio, a Serasa Experian contabilizou mais de 9 milhões de empresas negativadas, com R$ 229,9 bilhões em dívidas; micro e pequenas empresas representavam a maior parte desse universo. Pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil, com 609 consumidores inadimplentes, indicou que 81% recorreram a cartão, cheque especial ou empréstimos para pagar obrigações anteriores nos 12 meses precedentes. Um quarto declarou repetir a prática mensalmente. Esse comportamento adia o reconhecimento da insuficiência de renda, aumenta o custo acumulado e dificulta a recuperação. A pontualidade perde valor quando é sustentada por linhas mais caras, e a renegociação pode apenas deslocar o atraso se não considerar o fluxo financeiro completo do devedor. ## As bets viraram uma variável de risco financeiro As apostas online ganharam espaço na agenda de crédito porque passaram a competir diretamente com despesas essenciais, consumo e pagamento de parcelas. Estudo da Confederação Nacional do Comércio estimou que R$ 143,8 bilhões deixaram de circular no varejo e migraram para plataformas de apostas entre janeiro de 2023 e março de 2026. A mesma entidade associou esse movimento à entrada de cerca de 269 mil famílias em inadimplência severa. Esses números são estimativas e não demonstram causalidade individual. Ainda assim, outros levantamentos indicam que parte dos endividados recorre às bets na expectativa de quitar obrigações, convertendo a tentativa de recuperação em nova exposição ao risco. A resposta pública também avançou. A Secretaria Nacional do Consumidor criou, em 10 de julho, um grupo de trabalho para formular protocolos de fiscalização sobre publicidade, arquitetura das plataformas e práticas potencialmente abusivas. O governo informou ainda ter bloqueado o acesso de aproximadamente 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada às plataformas regulamentadas. Uma transferência ocasional não equivale a dependência, mas frequência, valor, uso de crédito para apostar e comprometimento de despesas essenciais podem sinalizar instabilidade. A análise deve ser proporcional, transparente e compatível com a proteção de dados. ## Quando a operação falha, o atraso não conta toda a história A inadimplência do consignado privado chegou a 7,9% em maio, com alta de 0,4 ponto percentual no mês. Na avaliação de integrantes do governo, mais da metade desse aumento teria relação com a falha na migração automática do desconto quando o trabalhador troca de emprego, e não necessariamente com incapacidade de pagamento. A funcionalidade, prevista no Crédito do Trabalhador, ainda não estava plenamente operacional e, segundo a Dataprev, deveria entrar em funcionamento em agosto. Durante a transição, a interrupção do desconto na folha pode gerar atraso involuntário, exigir nova averbação e até levar o trabalhador a cadastros restritivos. Indicadores de inadimplência podem misturar risco de crédito, falha de processo e deficiência de integração. Sem identificar a causa, a instituição pode penalizar um cliente solvente, provisionar mal ou iniciar uma cobrança incompatível. A qualidade da carteira depende também da qualidade operacional. ## No agro, a expectativa de renegociação altera o pagamento presente Os desembolsos das linhas tradicionais de crédito rural recuaram 12% na safra 2025/2026, para R$ 338,9 bilhões. Entre grandes produtores, a queda foi de 19%. Bancos e cooperativas ficaram mais seletivos diante do endividamento acumulado, dos riscos climáticos e da redução de margens em parte do setor. Nesse ambiente, governo e Frente Parlamentar da Agropecuária negociaram uma medida provisória para alongar dívidas. Até o encerramento da semana, o texto ainda não havia sido publicado. As condições divulgadas — prazos de até dez anos para perdas climáticas, limites distintos conforme a origem da dificuldade, juros diferenciados e reaproveitamento de garantias — permaneciam em discussão e não constituíam regra vigente. A demora tem efeito sobre o próprio risco. O Ministério da Fazenda relatou que instituições financeiras identificaram aumento de atrasos de produtores que aguardavam condições futuras mais favoráveis. É o chamado risco moral: a expectativa de uma renegociação pública pode reduzir o incentivo ao pagamento corrente, mesmo antes da edição da norma. A solução exige focalização e critérios verificáveis. Um programa amplo demais transfere custo ao contribuinte; um programa estreito demais pode inviabilizar produtores atingidos por choques comprovados. Garantias, laudos, histórico de pagamento e viabilidade econômica devem orientar o acesso. ## Recuperação exige precisão, não volume A Comissão de Fiscalização e Controle do Senado aprovou o Projeto de Lei 2.616/2025, que inclui empresas de cobrança nas restrições a contatos dirigidos a números cadastrados em uma plataforma nacional de bloqueio. A proposta prevê multas de R$ 5 mil a R$ 50 mil por infração, mas ainda depende da tramitação na Câmara e, portanto, não é lei vigente. O sinal regulatório é claro: a recuperação terá de depender menos da repetição de chamadas e mais da qualidade dos dados, do consentimento, do canal e da pertinência da abordagem. Na outra ponta, a duplicata escritural amplia a rastreabilidade dos recebíveis e pode fortalecer a execução de garantias. Em um mercado com mais reestruturações, não basta registrar uma garantia: é preciso saber se ela preserva valor e pode ser executada com segurança jurídica. ## O que conecta os fatos Os acontecimentos da semana mostram que a qualidade do crédito passou a depender de quatro dimensões inseparáveis: renda, comportamento, infraestrutura e recuperabilidade. O atraso pode nascer de insuficiência financeira, de uma aposta recorrente, de uma falha de sistema ou de uma expectativa criada por futura renegociação. O mesmo indicador final exige respostas diferentes. Na concessão, isso implica combinar capacidade de pagamento com dados comportamentais e operacionais, sem transformar correlação em condenação automática. Na gestão de risco, exige acompanhar o uso do crédito depois da contratação e distinguir deterioração econômica de erro de processamento. Na cobrança, pede segmentação por causa, canal e possibilidade real de regularização. Na recuperação, recoloca garantias, documentação e rastreabilidade no centro da decisão. A consequência é uma mudança de foco: sair do volume bruto de crédito e de contatos para medir a sustentabilidade da relação. O valor econômico está cada vez mais associado à capacidade de atravessar o atraso, renegociar com responsabilidade e recuperar sem destruir o vínculo com o cliente. ## O que acompanhar na próxima semana - A publicação, o adiamento ou a alteração da medida provisória de renegociação das dívidas rurais, especialmente quanto a público elegível, juros, prazos, garantias e custo fiscal. - O início da tramitação na Câmara do projeto que restringe ligações de cobrança e telemarketing, após o encerramento do prazo de recursos no Senado. - Os primeiros encaminhamentos do grupo de trabalho da Senacon sobre fiscalização das plataformas de apostas e proteção contra superendividamento. - A preparação de empregadores e instituições para o fim, em 22 de julho, do período transitório das regras de desconto do Crédito do Trabalhador nas rescisões. - Os balanços dos bancos no segundo trimestre, com atenção à inadimplência, ao custo de risco e às diferenças entre instituições tradicionais, digitais e cooperativas. ## Leia no Observatório - [Crédito em atraso atinge recorde de R$ 247,6 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026](https://ibegi.org.br/noticia/8/credito-em-atraso-atinge-recorde-de-r-247-6-bi-no-1o-quadrimestre-de-2026) - [Inadimplência empresarial atinge recorde de 9 milhões de CNPJs](https://ibegi.org.br/noticia/13/inadimplencia-empresarial-atinge-recorde-de-9-milhoes-de-cnpjs-e-dividas-somam-r-229-9-bilhoes) - [Pesquisa CNDL/SPC: 81% dos inadimplentes usaram novo crédito para quitar dívidas](https://ibegi.org.br/noticia/71/pesquisa-cndl-spc-81-dos-inadimplentes-pedalaram-dividas-com-novo-credito-no-ultimo-ano) - [Bets drenam consumo e ampliam dívidas](https://ibegi.org.br/noticia/160/bets-drenam-consumo-e-ampliam-dividas) - [Senacon cria grupo para fiscalizar o mercado de apostas](https://ibegi.org.br/noticia/157/senacon-cria-grupo-para-fiscalizar-mercado-de-apostas-de-quota-fixa-no-brasil) - [Atraso na migração automática eleva inadimplência do consignado privado](https://ibegi.org.br/noticia/46/atraso-na-migracao-automatica-do-credito-eleva-inadimplencia-do-consignado-privado) - [Concessão de crédito rural cai pela segunda safra seguida](https://ibegi.org.br/noticia/42/concessao-de-credito-rural-cai-pela-segunda-safra-seguida) - [MP da dívida rural prevê reaproveitamento de garantias e perfis diferenciados](https://ibegi.org.br/noticia/68/mp-da-divida-rural-preve-reaproveitamento-de-garantias-e-perfis-diferenciados-de-renegociacao-diz-durigan) - [Senado aprova projeto que restringe ligações de cobrança e telemarketing](https://ibegi.org.br/noticia/86/senado-aprova-projeto-que-restringe-ligacoes-de-cobranca-e-telemarketing) - [Duplicata escritural acelera nova fase do crédito](https://ibegi.org.br/noticia/133/duplicata-escritural-acelera-nova-fase-do-credito)
FONTE ORIGINAL:
https://ibegi.org.br/noticia/164/credito-cresce-mas-a-capacidade-de-pagamento-aperta
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