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Crédito cresce, mas recordes de atraso deslocam o foco para risco e recuperação
Publicado em: 30/08/2026 00:00
**Os dados de julho confirmaram uma deterioração mais ampla da qualidade do crédito, mesmo com expansão das carteiras e mercado de trabalho forte. A resposta começa a aparecer em maior cautela prudencial, renegociação no agro e ampliação dos mecanismos de recuperação de créditos inadimplentes.** O monitoramento do Observatório IBeGI entre 23 e 29 de agosto de 2026 trouxe uma mudança importante na leitura do ciclo do crédito. A deterioração que vinha aparecendo em diferentes indicadores passou a ser confirmada por estatísticas mais abrangentes do Banco Central: a inadimplência alcançou máximas históricas em julho, enquanto o comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu seu maior nível em junho. Ao mesmo tempo, não houve interrupção do crédito. O estoque total chegou a aproximadamente R$ 7,4 trilhões em julho, com expansão de 9,5% em 12 meses. O mercado de trabalho também permaneceu forte, com desemprego em 5,3% no trimestre encerrado em julho e recorde de ocupação. A combinação é relevante porque impede uma explicação simples baseada apenas em recessão, desemprego ou retração generalizada das concessões. O que ganhou peso foi a qualidade desse crescimento. O Banco Central prepara medidas para limitar riscos associados às modalidades mais onerosas; no crédito rural, a diferença entre operações a taxas de mercado e linhas reguladas tornou-se especialmente acentuada; e, na outra ponta do ciclo, programas de renegociação e o mercado de compra e venda de carteiras inadimplentes ganharam escala. São movimentos distintos, mas convergem para a mesma questão: quanto do crédito em circulação continua compatível com a capacidade de pagamento dos tomadores. ## O crescimento da carteira já não resume a situação do crédito Em julho, a inadimplência do crédito livre chegou a 6,4%, maior nível da série histórica do Banco Central. Entre pessoas físicas, alcançou 7,8%, com alta de 1,1 ponto percentual em 12 meses. Considerando todas as operações do Sistema Financeiro Nacional, o índice ficou em 4,9%; entre as famílias, em 5,8%. Todos esses números descrevem atrasos já materializados, não expectativas para os próximos meses. O comprometimento da renda acrescenta outra dimensão. Em junho — portanto, com um mês de referência diferente das estatísticas de inadimplência — as famílias destinavam 28,9% da renda ao pagamento de dívidas, maior percentual da série iniciada em 2011. O indicador avançou 1,7 ponto percentual em 12 meses. A distinção de datas é importante: os dados não representam uma fotografia única, mas apontam na mesma direção de pressão crescente sobre o orçamento familiar. Isso ocorreu enquanto o estoque de crédito seguia crescendo. Os R$ 7,4 trilhões registrados em julho representam avanço de 9,5% em 12 meses. Também houve redução da taxa média das novas operações de crédito livre, para 47,7% ao ano, embora o custo para pessoas físicas ainda estivesse em 60% ao ano. A queda mensal dos juros, portanto, coexistiu com o aumento dos atrasos e não permite concluir, por enquanto, que a pressão acumulada sobre a capacidade de pagamento tenha sido revertida. A leitura mais útil para o ciclo não é a de uma contradição entre “crédito crescendo” e “crédito piorando”. O volume mede a expansão do estoque; a inadimplência mede sua qualidade. Os dois podem avançar simultaneamente. Quando isso acontece, critérios de originação, provisões, garantias e capacidade de recuperação passam a importar tanto quanto o crescimento nominal das carteiras. ## Emprego forte desloca a atenção para a composição da dívida A PNAD Contínua mostrou que o trimestre encerrado em julho teve taxa de desemprego de 5,3%, a menor desde o início da série em 2012. O país chegou a 103,3 milhões de pessoas ocupadas; o rendimento real habitual médio foi de R$ 3.762 e a massa de rendimentos alcançou R$ 383,5 bilhões, também em nível recorde. Esse quadro não elimina dificuldades individuais de renda nem permite afirmar que o emprego protege todos os segmentos da inadimplência. Mostra, porém, que o avanço dos atrasos está ocorrendo sem deterioração correspondente dos principais indicadores agregados do mercado de trabalho. Isso aumenta a relevância de fatores como custo, finalidade, prazo e quantidade de dívidas acumuladas por um mesmo tomador. A reação regulatória começou a refletir essa preocupação. Em sua reunião de agosto, o Comitê de Estabilidade Financeira manteve o Adicional Contracíclico de Capital Principal, o ACCPBrasil, em 0%. Ao mesmo tempo, avaliou que o ambiente de juros contracionistas, maior inadimplência, endividamento e comprometimento de renda exige cautela adicional na concessão. O Comef também registrou que o Sistema Financeiro Nacional permanece preparado para enfrentar a materialização do risco de crédito, com níveis adequados de capital, liquidez e provisões. Essa distinção é central. Os dados disponíveis apontam deterioração da qualidade do crédito, mas não mostram, no material da semana, deterioração equivalente da solvência do sistema financeiro. O Banco Central informou que prepara medidas para reduzir riscos associados à participação de modalidades mais onerosas na dívida das famílias, mas ainda não detalhou os instrumentos que serão adotados. O movimento concreto, até aqui, é de preparação regulatória e maior exigência de diligência, não de uma nova restrição já implementada. ## No crédito rural, a taxa da operação separa riscos muito diferentes O agronegócio ofereceu uma demonstração especialmente clara de como médias agregadas podem esconder diferenças relevantes. A inadimplência do crédito rural direcionado a pessoas físicas chegou a 8,8% em julho, maior nível da série. Nas operações contratadas a taxas de mercado, porém, o índice atingiu 15,5%, ante 13,1% em junho. Nas operações a taxas reguladas, passou de 3,3% para 3,7%. A distância de mais de quatro vezes entre os dois segmentos mostra que o risco não está distribuído uniformemente dentro da própria carteira rural. Condições financeiras, estrutura da operação e custo do funding produzem resultados muito diferentes mesmo dentro de um setor exposto aos mesmos ciclos de preços e eventos climáticos. A resposta já entrou na etapa operacional. O Banco do Brasil iniciou, durante a semana, a renegociação de dívidas rurais com base na Medida Provisória 1.376/2026. O banco identificou cerca de 113 mil clientes com operações potencialmente elegíveis, que representam até R$ 100 bilhões em carteira. Esse valor é o universo potencial das operações enquadráveis, não o montante efetivamente renegociado. Dentro dessa carteira, 36% das operações estavam inadimplentes; as demais incluíam contratos que já haviam sido prorrogados ou renegociados anteriormente. O Conselho Monetário Nacional também ampliou a flexibilidade para a composição dessas dívidas. A Resolução 5.334, de 24 de agosto, permitiu o uso de recursos obrigatórios para liquidar ou amortizar determinadas operações, estabelecendo limite de 40% das exigibilidades e subexigibilidades consideradas nas regras do crédito rural. A norma não representa perdão nem renegociação automática: o produtor precisa cumprir as condições e contratar uma nova solução com a instituição financeira. ## Recuperar passa a ser tão relevante quanto conceder A deterioração das carteiras também está alterando a etapa posterior ao atraso. A Recovery, empresa do grupo Itaú, projeta que o mercado brasileiro de cessão de carteiras inadimplentes alcance R$ 40 bilhões em 2026, cerca de 20% acima dos R$ 34 bilhões de 2025. A estimativa é da própria companhia e não deve ser tratada como resultado já realizado, mas indica maior oferta de ativos para investidores especializados em recuperação. Os dados da empresa trazem outro sinal. Em sua própria base, a proporção de quitações à vista teria caído de 35% para 10%, enquanto o parcelamento passou a representar 90% das negociações. Como se trata da carteira administrada pela Recovery, o comportamento não pode ser automaticamente generalizado para todo o mercado. Ainda assim, ele sugere que o desenho dos acordos está se adaptando a consumidores com menor disponibilidade imediata de caixa. No segmento de baixa renda, o Novo Desenrola Brasil chegava aos últimos dias de vigência ao final do período analisado. Até o início da última semana de agosto, a modalidade voltada às famílias havia renegociado cerca de 5,03 milhões de débitos, cujo valor original de R$ 26,33 bilhões foi reduzido para aproximadamente R$ 5,27 bilhões após descontos e acordos. O encerramento estava previsto para 31 de agosto, dois dias depois do término do recorte desta edição. A escala das renegociações é relevante, mas precisa ser interpretada corretamente. Dívida renegociada não equivale a dinheiro recuperado, assim como desconto concedido não demonstra sozinho a recomposição permanente da capacidade de pagamento. A etapa seguinte é acompanhar o desempenho dos novos contratos. Em um ambiente de comprometimento de renda elevado, a sustentabilidade do acordo passa a ser um indicador mais importante do que sua formalização. ## O que a semana revela Os acontecimentos de 23 a 29 de agosto mostram um ciclo em que o problema central deixou de ser apenas saber se o crédito continuará crescendo. Ele continua crescendo. A questão passa a ser em que modalidades, para quais tomadores e com qual capacidade de absorção do serviço da dívida. Os recordes de inadimplência e comprometimento de renda tornam a qualidade das novas operações e a administração do estoque problemático mais relevantes para a próxima etapa do ciclo. Ao mesmo tempo, os dados não sustentam uma leitura de crise sistêmica. O mercado de trabalho permanece forte, o estoque de crédito segue em expansão e o próprio Comef avalia que capital, liquidez e provisões do sistema financeiro são adequados. A tensão está entre essas condições agregadas relativamente favoráveis e a deterioração da capacidade de pagamento em segmentos específicos, especialmente no crédito livre às famílias e nas operações rurais a taxas de mercado. Alguns movimentos da semana já são concretos: os recordes registrados nas estatísticas do Banco Central, a abertura da renegociação rural pelo Banco do Brasil e a nova regra do CMN. Outros ainda precisam ser medidos: o desenho das medidas macroprudenciais em preparação, o volume efetivamente contratado nas renegociações, a adimplência dos acordos depois da reestruturação e a projeção de crescimento do mercado de carteiras inadimplentes. Nas próximas semanas, esses indicadores ajudarão a mostrar se a resposta ao aumento do risco conseguirá reduzir a formação de novos atrasos ou se o crescimento do crédito continuará ampliando simultaneamente o estoque que precisa ser renegociado e recuperado. ## Notícias que fundamentaram esta análise As notícias que fundamentaram esta análise estão disponíveis no [Observatório IBeGI](https://ibegi.org.br/observatorio.xhtml). ## Curadoria diária do ciclo do crédito O Observatório combina Big Data Discovery, inteligência artificial e supervisão humana para monitorar centenas de fontes jornalísticas e institucionais, processar seus conteúdos e identificar notícias e sinais relevantes para o ciclo do crédito.
FONTE ORIGINAL:
https://ibegi.org.br/noticia/2350/credito-cresce-mas-recordes-de-atraso-deslocam-o-foco-para-risco-e-recuperacao
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