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Nove milhões de empresas estão inadimplentes, e o problema costuma começar no prazo dado ao cliente
Publicado em: 07/10/2026 11:22
O Brasil encerrou julho com 9,2 milhões de empresas inadimplentes, o maior patamar da série histórica da Serasa Experian, acumulando 67,2 milhões de dívidas em atraso que somam R$ 238,6 bilhões. Cada CNPJ negativado deve, em média, R$ 25,9 mil. O dado relevante está na composição do problema: bancos, cartões, cooperativas e financeiras respondem por 24,3% do total, enquanto os outros 75,7% estão com prestadores de serviços (31,7%), concessionárias de água, luz e gás, telefonia e fornecedores em geral — ou seja, a inadimplência circula predominantemente entre empresas. A explicação parte de um hábito estrutural do mercado brasileiro. Segundo levantamento da Qive com mais de 500 milhões de notas fiscais emitidas entre 2023 e 2025, 77% das transações entre empresas ocorrem a prazo, num volume de R$ 4,1 trilhões. A pesquisa de pagamentos da Coface na América Latina (abril a maio de 2026, 272 empresas de seis países) posiciona o Brasil com prazo médio de 66 dias para receber, empatado com a Argentina no topo da região, enquanto a média latino-americana recuou de 59 para 56 dias em um ano. Na região, 95% das empresas concedem crédito comercial e 79% enfrentaram atrasos em 2026, com atraso médio de 33 dias. Ao vender a prazo, a empresa financia o cliente com o próprio caixa: se o pagamento atrasa, o dinheiro destinado a fornecedores, salários e impostos não entra e a diferença é coberta com capital próprio ou crédito bancário. O impacto aparece no ciclo de conversão de caixa, que nas empresas analisadas pela KPMG foi de 88 dias em 2024 — 160 dias entre as pequenas, 142 nas médias e 76 nas grandes. Essa assimetria ajuda a explicar por que 94,6% das empresas inadimplentes são micro e pequenas. Os cortes da Selic, que chegou a 13,75% ao ano em setembro, ainda não alteraram o quadro de forma estrutural, segundo a economista-chefe da Serasa Experian. O efeito em cadeia aparece também na recuperação judicial: em 2025, o país registrou 2.466 empresas no processo, e a entrada de uma companhia congela dívidas com fornecedores, que passam a depender do plano aprovado pelos credores. Como mudança em curso, a duplicata escritural, versão digital do título usado em vendas a prazo, começou a ser adotada em 2026 e tende a facilitar registro e antecipação de recebíveis. A ferramenta, porém, não substitui a decisão anterior de crédito: a quem vender a prazo, quanto e por quanto tempo — decisão que, em muitas empresas, ainda é definida pela área comercial como argumento de venda, embora opere como concessão de crédito com risco, custo de capital e impacto direto sobre a liquidez.
FONTE ORIGINAL:
https://exame.com/carreira/nove-milhoes-de-empresas-estao-inadimplentes-e-o-problema-costuma-comecar-no-prazo-dado-ao-cliente
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