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Após recorde, ‘spread’ de papel incentivado supera o do comum

Publicado em: 13/10/2026 05:04
Após recorde, ‘spread’ de papel incentivado supera o do comum
A alta generalizada dos prêmios de risco das debêntures incentivadas nas últimas semanas provocou um fenômeno raramente observado no crédito privado: muitos desses papéis passaram a oferecer remuneração superior à de debêntures comuns de risco semelhante, apesar do benefício fiscal. Um levantamento da Régia Capital mostra que os títulos incentivados estão pagando 1,5% ao ano a mais que as debêntures corporativas, considerando o cálculo de "gross-up" que compensa a isenção de Imposto de Renda. No cálculo com alíquota de 15% de IR, o spread do IDA-IPCA Infraestrutura, índice da Anbima que reflete desempenho de carteira teórica de debêntures incentivadas, está em 2,89%, contra 1,40% do IDA-DI. Segundo Fernando Tinoco, gestor de fundos de crédito da Régia, a diferença entre os dois índices foi igual ou superior a cerca de 1,50 ponto percentual ao ano em apenas 10% dos dias nos últimos cinco anos. De acordo com Tinoco, a alta dos spreads das incentivadas não decorreu de piora na percepção de risco das empresas do setor, mas de fluxo de recursos para os fundos, que caiu após momentos de desempenho ruim da cota; para honrar resgates, fundos de infraestrutura precisaram fazer caixa e vender papéis. Bruno Spilberg, da SPX, acrescenta que tesourarias de bancos também venderam papéis remanescentes de ofertas primárias com demanda insuficiente, enquanto faltou demanda para absorver essas vendas no período pré-eleitoral, quando a redução das taxas das NTN-Bs em setembro também reduziu a pressão compradora dos fundos de infraestrutura. Enquanto isso, fundos de crédito privado estavam com caixa alto e não precisaram ir ao mercado, o que "blindou" os spreads das debêntures corporativas. O levantamento da área de pesquisa do ABC Brasil mostra que a média dos spreads das incentivadas (sem gross-up) passou de -2 pontos centesimais, abaixo da NTN-B, no início de julho, para 43 pontos na semana passada, um recorde; já a média dos prêmios de risco dos papéis atrelados ao CDI ficou praticamente estável, de 97 para 102 pontos. A forte mudança na infraestrutura trouxe ainda outra situação pouco comum: a inversão de spreads entre papéis de um mesmo emissor. Em casos como Ecorodovias e Ecovias dos Imigrantes, debêntures incentivadas oferecem spreads superiores aos de papéis convencionais comparáveis da própria companhia; na Enel Ceará, a diferença é menor, mas segue na mesma direção. Para Odilon Costa, responsável pela pesquisa do ABC Brasil, para alguns emissores a diferença entre spreads incentivados e não incentivados diminuiu tanto que tende a atrair veículos sem isenção caso os prêmios de infraestrutura continuem aumentando. No levantamento anterior do banco, em agosto, nenhum dos papéis incentivados analisados oferecia spread superior ao de uma debênture convencional comparável. Spilberg ressalta, porém, que há descompasso de liquidez: fundos tradicionais de crédito têm passivos e prazos de resgate mais curtos e compram ativos mais curtos, enquanto debêntures de infraestrutura, em geral mais longas e menos líquidas, podem introduzir volatilidade que o cotista não espera; a oportunidade existe, mas tem um custo que não aparece apenas na comparação dos spreads. A Régia diz que toda a família de fundos da casa vem alocando em incentivadas e acredita que fundos de infraestrutura ainda devam sofrer mais resgates em outubro e novembro, com impacto nas cotas. Na Legacy Capital, a preferência é por títulos que rendam a partir de CDI mais 1,5% ao ano. A Ibiunã Investimentos afirma que já avalia bons negócios, com incentivadas oferecendo "prêmios adequados ou superiores ao risco", mas espera mais saques nos fundos de infraestrutura antes de agir; a gestora alerta que o fato de muitos papéis terem superado as debêntures comuns pode levar a contágio, com alta de spreads mais relevante também nas corporativas. A Sparta reforça o perigo de contaminação, já que fundos de infraestrutura, ao fazerem caixa, podem se desfazer de debêntures comuns em carteira na parcela livre permitida pela legislação: "os dois mercados não são independentes. Um desequilíbrio relevante nas incentivadas pode contaminar os preços das não incentivadas mesmo sem qualquer mudança nos fundamentos dos emissores", diz o relatório da gestora.
FONTE ORIGINAL:
https://valor.globo.com/google/amp/financas/noticia/2026/10/13/apos-recorde-spread-de-papel-incentivado-supera-o-do-comum.ghtml
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