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Endividamento de 20,3 milhões de pessoas ameaça consumo e varejo, diz especialista
Publicado em: 30/10/2026 16:26
O avanço do endividamento de risco no Brasil passou a ser medido não apenas pela inadimplência bancária, mas também pelo efeito sobre o consumo e a saúde financeira das empresas. Segundo dados do Banco Central divulgados no final de junho, 20,3 milhões de pessoas estavam nessa condição, alta de 75% em cinco anos. O contingente equivale a 17% dos devedores do sistema financeiro, proporção que subiu de 14,7% em um ano, após período de estabilidade entre 2022 e 2023. A classificação de endividado de risco considera pessoas com pelo menos dois sinais de dificuldade financeira: atraso superior a 90 dias, comprometimento de mais da metade da renda com parcelas, uso simultâneo de linhas caras de crédito ou renda residual abaixo da linha de pobreza após o pagamento das dívidas. O conceito difere do superendividamento previsto na Lei 14.181/2021, que exige que o devedor não consiga honrar obrigações sem comprometer o mínimo para a subsistência. No primeiro semestre, quatro modalidades registraram os maiores índices de inadimplência da série histórica: cartão de crédito (12,7% em junho, com pico de 13,2%), crédito rural (10,3%), financiamento de veículos (8,5%) e consignado (5%). O crédito pessoal não consignado liderou com 14,9%, embora abaixo do pico de 16,5% de 2016. Os ativos problemáticos — operações com atraso superior a 90 dias ou indícios de não pagamento integral — alcançaram 9,2% da carteira de pessoas físicas em junho, depois de marcar 9,3%, o maior patamar da série. Entre os fatores apontados estão o custo do juros, com a Selic em 13,75% e o comprometimento de renda das famílias no maior nível em 21 anos; a concentração da inadimplência em modalidades sem garantia; e a facilidade de contratação de crédito por canais digitais, que pode dispersar o endividamento entre instituições sem visão consolidada do comprometimento de renda. O Banco Central também aponta fraudes, golpes e modelos de negócio que exploram comportamento impulsivo como fatores associados aos riscos do mercado de crédito. Parte da alta nos indicadores decorre de mudança regulatória: desde janeiro de 2025, a Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional transferiu às instituições a definição do momento de reconhecimento de perdas, prolongando a permanência de operações em atraso nos balanços. O Banco Central estima que, sem essa alteração, a inadimplência do sistema seria 0,78 ponto percentual menor em junho, mas ressalta que a taxa também teria subido sob as regras anteriores. Em relação à resposta regulatória, a autoridade monetária estuda exigir mais capital das instituições para operações de cartão de crédito e crédito pessoal não consignado, medida que pode elevar o custo e reduzir a oferta de crédito para consumidores com menos alternativas. Ainda assim, o Banco Central afirma não ver risco relevante para a estabilidade financeira: o Sistema Financeiro Nacional mantém capitalização e liquidez confortáveis, provisões compatíveis com os riscos identificados e resultados favoráveis em testes de estresse. No cenário apresentado pelo especialista, a queda gradual da Selic em 2027 levaria a inadimplência a recuar apenas no segundo semestre do ano, com o número de endividados de risco deixando de crescer sem redução expressiva. Em uma hipótese favorável, a combinação de juros mais baixos, programas de renegociação em larga escala e migração de dívidas caras para linhas mais baratas poderia retirar parte dos cerca de 20 milhões de classificados como endividados de risco em 12 a 18 meses. Em cenário adverso, o desemprego seria o principal gatilho de inadimplência em massa. As estimativas do Banco Central indicam que os ativos problemáticos devem permanecer elevados na maioria das modalidades ao longo de 2026, com bancos sinalizando maior restrição na oferta de empréstimos às famílias no segundo semestre.
FONTE ORIGINAL:
https://monitordomercado.com.br/noticias/433876-endividamento-de-203-milhoes-de-pessoas-ameaca-consumo-e-varejo-diz-especialista
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