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Desenrola 3.0 não deve conter endividamento das famílias, dizem analistas
Publicado em: 29/09/2026 04:00
O Desenrola 3.0, terceira edição do programa de renegociação de dívidas de pessoas físicas, foi lançado pelo governo e deve ter efeito limitado sobre o endividamento das famílias, segundo especialistas consultados. Embora possa ajudar consumidores a regularizar débitos antigos, o programa não alteraria as condições que levaram ao aumento do comprometimento de renda nos últimos anos e, por isso, não deveria produzir melhora sustentada nos indicadores. A nova rodada prevê que a União adquira, via leilão, carteiras de crédito com desconto mínimo de 90%. O governo pretende desembolsar R$ 15 bilhões para comprar até R$ 150 bilhões em dívidas, com foco em débitos de pessoas físicas em atraso de dois anos a quatro anos e meio. Podem ser incluídas dívidas bancárias, especialmente cartão de crédito parcelado ou rotativo e crédito pessoal não consignado, além de débitos não bancários, como contas de serviços públicos, compras no varejo e dívidas com prestadores de serviços. A pesquisadora Katherine Hennings, do FGV Ibre e da BRCG Consultoria, atribui o aumento da alavancagem das famílias à facilidade de acesso ao crédito impulsionada pela digitalização do sistema financeiro e a um descompasso entre o padrão de consumo desejado e o que a renda efetiva permite. Segundo ela, programas de renegociação produziram melhora pontual, sem atacar esse desequilíbrio — houve redução temporária da inadimplência após o primeiro Desenrola, e os indicadores voltaram a piorar em seguida. Ela também aponta a falta de avaliação dos resultados da segunda edição antes do lançamento da terceira. O relatório do banco suíço UBS, de Thiago Batista, Beatriz Shinye e Kaio Prato, avaliou que o programa pode ser positivo no curto prazo, mas aumentar o risco moral no longo prazo, com a possibilidade de incentivar pessoas a não pagarem empréstimos em dia na expectativa de novas rodadas de refinanciamento. O UBS destacou ainda que a inadimplência continuou crescendo apesar das iniciativas anteriores: o número de pessoas incluídas nos cadastros de inadimplentes aumentou em 2,7 milhões entre dezembro de 2025 e agosto de 2026, chegando a 84 milhões, cerca de 51% da população adulta. Gabriel Gusan, analista da Bloomberg Intelligence, também vê dúvidas sobre a capacidade do novo programa de impulsionar o consumo. Segundo ele, devedores que conviveram por mais de dois anos com a inadimplência já se adaptaram à vida sem esses pagamentos: a remoção da dívida negativa pode limpar o registro formal, mas não restaura a renda, a capacidade de pagamento ou as pontuações internas dos bancos. Para o analista, o efeito sobre a economia dependerá mais da oferta de novo crédito, com poucos motivos para os credores reavaliarem esses clientes tão rapidamente, e a prorrogação do Desenrola Adimplentes pode ter efeito mais direto que a regularização de dívidas antigas. O Desenrola 3.0 apresenta desenho diferente das duas iniciativas anteriores de 2026. O primeiro foi voltado para dívidas de cartão de crédito e empréstimos ao consumidor com atrasos entre 90 dias e dois anos; o Desenrola Adimplentes buscou trabalhadores informais ainda em dia ou com atrasos inferiores a 90 dias. Nas iniciativas anteriores, o governo utilizava mecanismos de garantia e plataformas de renegociação; na nova rodada, a União compra as carteiras inadimplentes em leilões com desconto mínimo de 90%, repassando o desconto obtido ao consumidor.
FONTE ORIGINAL:
https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/09/29/desenrola-30-nao-deve-conter-endividamento-das-familias-dizem-analistas.ghtml
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