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Crédito mais caro ajuda a explicar recorde de inadimplência no campo
Publicado em: 20/10/2026 12:52
Pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP) concluíram que a dívida rural não cresceu além da renda dos produtores nos últimos anos, mas ficou mais cara, mudou de credor e se concentrou. A análise aponta que o avanço da inadimplência no setor agropecuário — de 0,8% entre pessoas físicas em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026 — decorre do aumento do custo do passivo, das características de composição e da concentração do débito, e não do tamanho do estoque de dívida. O estudo cruzou dados do Banco Central, do Cepea, do IBGE e do Banco Mundial. Segundo os autores, a explicação mais provável para o avanço dos atrasos é o descompasso entre o custo da dívida na contratação e no vencimento: dívidas de investimento contratadas com margens de 2020 a 2022 teriam vencido quando as margens dos grãos encolheram e os juros dobraram. A resposta defendida pelos autores não é o alongamento generalizado, mas a separação entre liquidez e solvência, caso a caso, com base nas contas da fazenda. O texto ressalta que a carteira de crédito rural equivalia a 94% da renda anual da agropecuária em 2025, dentro da faixa de 87% a 109% observada entre 2013 e 2019, período em que a inadimplência era um terço da atual. Em contrapartida, a taxa média do crédito rural a pessoas físicas saiu de 6,3% para 12,2% entre 2021 e 2025, e o custo dos juros quase triplicou, passando de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, de 3,9% para 11,4% da renda do setor. O atraso nos pagamentos se concentra nas operações a taxas de mercado, que cresceram a reboque da Selic desde 2019. Fontes privadas de crédito rural com taxa livre, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), passaram de 5% do crédito rural contratado em 2013 para quase metade em 2023 e concentraram 77% do saldo em atraso, com inadimplência de 17,6%, contra 3,8% nos juros controlados. A situação climática também pesou de forma desigual: na região Sul, o choque climático elevou o estoque problemático do crédito rural, mas com baixa inadimplência, enquanto no Centro-Oeste e no Matopiba o saldo com problemas é menor, porém já convertido na inadimplência mais alta do país. O estudo destaca lacunas de dados relevantes para o diagnóstico completo: inadimplência por finalidade e por produto, taxas de renegociações bilaterais, separação entre custeio e investimento e dívidas fora do sistema financeiro. Segundo os autores, parte do financiamento está fora das estatísticas — o investimento agropecuário cresceu 71% desde 2019 e 64% dele foi financiado fora do crédito rural, por recursos próprios, CPR, fornecedores e leasing. O próximo passo do trabalho será medir em quantas regiões e safras a receita cobre o custo total, a fim de separar liquidez de solvência.
FONTE ORIGINAL:
https://mundocoop.com.br/agronegocio/credito-mais-caro-ajuda-a-explicar-recorde-de-inadimplencia-no-campo
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