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Inadimplência recorde no agro vem do custo e não do tamanho da dívida, aponta Cepea
Publicado em: 20/10/2026 09:40
Um estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), assinado pelos pesquisadores Lucilio R. A. Alves e Geraldo S. A. de C. Barros, aponta que a inadimplência no crédito rural para pessoas físicas atingiu o topo histórico da série do Banco Central, saltando de 0,8% em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026. O diagnóstico, apresentado em um Texto Ocasional para Discussão, conclui que o atraso não decorre de endividamento desmedido do produtor frente à sua produção, mas de um custo financeiro muito mais elevado, mudança de credor e concentração em modalidades de juros livres. O volume da dívida não aparece como causa: em 2025, o estoque da carteira de crédito rural representava 94% da renda anual da agropecuária, dentro da margem histórica de 2013 a 2019 (87% a 109%), período com inadimplência de cerca de um terço do patamar atual. O que mudou foi o custo de carregar essa dívida — a taxa média cobrada no crédito rural para pessoa física passou de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% ao ano em 2025, e a fatura anual de juros estimada para o setor quase triplicou, de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, evoluindo de 3,9% para 11,4% da renda total gerada pelo agro. O estudo destaca a migração para fontes privadas com taxas livres, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), que saíram de 5% dos contratos em 2013 para quase metade em 2023. Atreladas à variação da Selic, essas operações concentram 77% do saldo em atraso, com inadimplência de 17,6% contra 3,8% nos financiamentos de juros controlados. O aperto atinge sobretudo a cultura de grãos, com preço real 28% abaixo do patamar de 2021 e a pior relação de troca com fertilizantes da série, enquanto a pecuária vive ciclo oposto de recuperação. Segundo os autores, a taxa oficial reflete apenas parte do problema: em agosto de 2026, a chamada carteira problemática do Banco Central somava R$ 205 bilhões, ou 23,8% de todo o crédito rural do país, dos quais três quartos estão renegociados ou prorrogados e não entram no índice de inadimplência. O Rio Grande do Sul retém 13% da carteira nacional, mas concentra 21% da carteira problemática e 27% dos saldos prorrogados, com inadimplência formal de 3,2%; no Centro-Oeste e no Matopiba, o diferimento já deu lugar ao atraso explícito, com 8,8% em Goiás e mais de 15% em Maranhão e Tocantins. Além disso, desde 2019 o investimento agropecuário subiu 71%, com 64% desse aporte financiado fora do sistema de crédito rural tradicional, via CPRs, fornecedores, leasing ou capital próprio — dívida que não aparece nas estatísticas oficiais. Na esfera governamental, a MP 1.376/2026 renegociou R$ 5,98 bilhões até início de outubro, cerca de 5% do montante estimado, cobrindo 1.3% das dívidas focadas em investimentos. Para os pesquisadores, a situação decorre de financiamentos de longo prazo contratados no ciclo de margens altas (2020 a 2022) que venceram com preços dos grãos em queda e juros em alta. A recomendação é evitar alongamento generalizado de prazos, priorizar a separação entre liquidez e solvência com análise individual da capacidade financeira de cada propriedade e ampliar a transparência de dados hoje inacessíveis, como a taxa de renegociações bilaterais e o volume de endividamento fora do sistema financeiro tradicional.
FONTE ORIGINAL:
https://www.itatiaia.com.br/agro/inadimplencia-recorde-no-agro-vem-do-custo-e-nao-do-tamanho-da-divida-aponta-cepea
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