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Endividados de risco somam 20,3 milhões e pressionam consumo

Publicado em: 30/10/2026 16:33
Endividados de risco somam 20,3 milhões e pressionam consumo
O endividamento de risco alcançou 20,3 milhões de brasileiros em junho deste ano, alta de 75% em cinco anos segundo dados do Banco Central, o que equivale a 17% dos devedores do sistema financeiro. Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do primeiro semestre de 2026, o movimento compromete a renda disponível das famílias, reduz o espaço para novas compras e pressiona o comércio e seus fornecedores. A proporção de endividados de risco passou de 14,7% para 17% em um ano, após estabilidade entre 2022 e 2023. A classificação considera pessoas com pelo menos dois sinais de dificuldade financeira: atraso superior a 90 dias, comprometimento de mais da metade da renda com parcelas, uso simultâneo de linhas caras de crédito ou renda restante abaixo da linha de pobreza após o pagamento das dívidas. O conceito difere do superendividamento previsto na Lei 14.181/2021, que exige que a pessoa não consiga pagar suas obrigações sem comprometer o mínimo para a própria subsistência. O piso existencial de R$ 600 mensais, mantido pelo STF com revisão periódica, é apontado pelo especialista Luís Gustavo de Paiva Leão como fator que dificulta a comprovação da condição e mantém o instrumento de renegociação subutilizado. No primeiro semestre, quatro modalidades registraram os maiores índices de inadimplência da série histórica: cartão de crédito (13,2%, encerrando junho em 12,7%), crédito rural (10,3%), financiamento de veículos (8,5%) e consignado (5%). O crédito pessoal não consignado apresentou 14,9%, a maior entre as linhas analisadas. Ativos problemáticos — operações com atraso superior a 90 dias ou indícios de não integral pagamento — representavam 9,2% da carteira de pessoas físicas em junho, contra 9,3% no pico recente e 6,3% no ponto mais baixo de 2021. Leão aponta três fatores para o avanço do endividamento de risco: o peso dos juros no orçamento doméstico, com a Selic em 13,75% e o comprometimento de renda das famílias no maior nível em 21 anos; a concentração da inadimplência em modalidades sem garantia; e a facilidade de contratação de empréstimos por meio digital, com o consumidor podendo assumir dívidas em várias instituições sem que nenhuma tenha visão completa de seu comprometimento de renda. O próprio Banco Central relaciona fraudes, golpes e modelos de negócio que exploram comportamento impulsivo aos riscos do mercado de crédito. Parte da alta da inadimplência decorre da Resolução 4.966 do CMN, em vigor desde janeiro de 2025, que transferiu às instituições a definição do momento de reconhecimento de perda: o Banco Central estima que, sem a alteração, a inadimplência do sistema seria 0,78 ponto percentual menor em junho, ressaltando que também teria aumentado sob as regras anteriores. Em estudo no BC está a exigência de mais capital para operações com cartão de crédito e crédito pessoal não consignado, medida que pode produzir crédito mais caro e escasso para consumidores com menos alternativas e, na avaliação do especialista, levar parte deles ao crédito informal, fora das estatísticas oficiais. Apesar da piora nos indicadores, o Banco Central afirma não ver risco relevante para a estabilidade financeira: o SFN mantém níveis confortáveis de capitalização e liquidez, provisões compatíveis com os riscos identificados e resultados favoráveis nos testes de estresse. As estimativas de probabilidade de inadimplência indicam que os ativos problemáticos devem permanecer elevados na maioria das modalidades ao longo de 2026, e os bancos sinalizam maior restrição na oferta de empréstimos às famílias no segundo semestre. No cenário-base de Leão, a inadimplência começaria a recuar apenas no segundo semestre de 2027, enquanto, em cenário adverso, o desemprego seria o principal gatilho para a transformação do endividamento em inadimplência em massa.
FONTE ORIGINAL:
https://www.spacemoney.com.br/credito/endividamento-risco-20-milhoes-credito
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