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Selic cai, mas a oferta de crédito fica mais seletiva
Publicado em: 09/08/2026 00:00
**Com 82% das famílias endividadas e bancos elevando provisões, o corte da taxa básica não se traduziu em abertura ampla das concessões. O crescimento migra para linhas em que garantia, desconto automático ou compartilhamento de risco reduzem a incerteza.** O monitoramento do Observatório IBeGI entre 2 e 8 de agosto registrou um movimento que, isoladamente, sugeriria alívio: em 5 de agosto, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo. A decisão, porém, coincidiu com sinais de cautela na ponta do crédito. Famílias chegaram a um novo recorde de endividamento e grandes bancos reforçaram provisões e passaram a explicitar preferência por operações de menor risco. A leitura conjunta desses fatos mostra que o ciclo não está sendo definido apenas pela direção da taxa básica. O custo de referência começou a recuar, mas a oferta efetiva continua condicionada à capacidade de pagamento, à qualidade das carteiras e à possibilidade de reduzir perdas por meio de garantias, desconto automático, melhor informação ou compartilhamento de risco. Isso não significa uma paralisação do crédito. As carteiras continuam crescendo em vários segmentos. A mudança está na forma como esse crescimento é selecionado: o dinheiro tende a fluir com mais facilidade quando o credor consegue observar melhor o fluxo de pagamento, executar uma garantia ou dividir a perda potencial. Quando esses mecanismos são insuficientes, programas com funding disponível podem continuar encontrando baixa aprovação ou adesão limitada. ## A Selic caiu antes de o risco ceder O corte para 14% reduz gradualmente o custo de referência da economia, mas sua transmissão às taxas finais não é automática. Entre a Selic e o preço cobrado do tomador estão risco de inadimplência, capital, custo operacional, prazo, garantias e margem. Nesta semana, os balanços e as falas dos bancos mostraram que esses componentes continuam pesando. Itaú Unibanco, Bradesco e Santander elevaram em 12,4% as provisões para perdas com crédito no segundo trimestre, para R$ 28,7 bilhões, na comparação com o mesmo período de 2025. A carteira conjunta cresceu 9,4%, para R$ 3,37 trilhões. Ou seja, houve expansão, mas as reservas para perdas avançaram em ritmo superior. A reação estratégica também ficou mais explícita. Executivos do Itaú e do Bradesco sinalizaram disposição para sacrificar parte do crescimento em favor da qualidade das carteiras. No Bradesco, a participação de operações com garantia aumentou de 58,5% para 61% da carteira. Consignado, financiamento imobiliário, veículos e linhas apoiadas por fundos garantidores aparecem entre os produtos favorecidos nesse ambiente. Os dados não permitem concluir que todo o sistema entrou em contração. A própria expansão da carteira dos três bancos impede essa leitura. O ponto é outro: depois de um período de juros altos e aumento das perdas esperadas, o corte da Selic começou antes de uma normalização clara do risco. Por isso, a política monetária mais branda ainda convive com uma política de crédito privada mais seletiva. ## Endividamento recorde, mas atraso não piorou no mesmo ritmo A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, trouxe a principal tensão do lado das famílias. Em julho, 82% delas tinham dívidas a vencer, maior percentual da série e 0,4 ponto acima de junho. Em relação a julho de 2025, o aumento foi de 3,5 pontos percentuais. Endividamento, porém, não é sinônimo de inadimplência. No mesmo levantamento, a parcela de famílias com contas em atraso recuou de 29,9% para 29,8%. O tempo médio de atraso caiu pelo terceiro mês seguido, para 64,6 dias, enquanto 19% dos consumidores destinavam mais da metade da renda mensal ao pagamento de dívidas. Em média, as famílias endividadas comprometiam 29,5% da renda com esses pagamentos. Essa combinação exige uma leitura mais cuidadosa do que a simples oposição entre “recorde de dívida” e “queda da inadimplência”. O dado de julho mostra que mais famílias estão usando crédito, ao mesmo tempo em que o atraso agregado teve melhora marginal. Isso pode refletir renegociações, mercado de trabalho e reorganização de pagamentos, mas o material disponível não permite atribuir a variação a uma causa única. A pressão também não é uniforme. Entre famílias com renda de até três salários mínimos, o endividamento chegou a 84,9%. Esse grupo permanece mais vulnerável a juros, inflação de itens essenciais e choques de renda. Para os credores, a consequência é que a queda de 0,1 ponto na inadimplência não elimina a necessidade de segmentar capacidade de pagamento. Um tomador adimplente, mas com pouca margem mensal, pode representar risco crescente antes de aparecer nas estatísticas de atraso. ## Crédito cresce quando a mecânica reduz a incerteza O consignado privado ajuda a entender por que algumas modalidades continuam se expandindo mesmo em ambiente de cautela. O saldo chegou a R$ 113 bilhões em junho, segundo dados do Banco Central citados pela Capital Aberto. O desconto em folha reduz a incerteza sobre a cobrança e o desenho da modalidade incorporou garantias ligadas ao vínculo trabalhista, tornando o produto atraente para bancos, fintechs e estruturas de securitização. O crescimento, contudo, trouxe um tipo diferente de risco. A portabilidade do desconto quando o trabalhador muda de emprego ainda gera falhas. No Banco Inter, relatório do BTG Pactual atribuiu ao consignado privado mais de 80% do aumento da inadimplência no segundo trimestre. Segundo a análise, parte relevante do atraso decorreu da interrupção do desconto até o restabelecimento do vínculo com o novo empregador, e não necessariamente de perda de capacidade de pagamento. O caso não deve ser generalizado para todo o consignado privado, mas revela uma distinção importante. Uma modalidade pode reduzir o risco de crédito e, ao mesmo tempo, elevar a dependência de integração de dados, processamento e cobrança. Se a infraestrutura falha, o indicador de inadimplência passa a misturar deterioração econômica e problema operacional. A expansão dos FIDCs ligados ao consignado reforça essa necessidade de precisão. Quanto mais o crédito circula entre originadores e investidores, maior a importância de distinguir atraso real, falha de repasse, qualidade da originação e capacidade de cobrança. A garantia ou o desconto automático reduzem parte da incerteza; não eliminam a necessidade de medir corretamente a perda. ## Garantia pública abre espaço, mas não substitui a análise O Move Brasil mostrou o limite mais visível dessa lógica. Pouco mais de um mês após o lançamento, a linha para taxistas e motoristas de aplicativos tinha demanda de R$ 2,2 bilhões, equivalente a 7,3% dos R$ 30 bilhões reservados. Em uma rede de concessionárias citada pela reportagem de O Globo, menos de 10% das propostas analisadas foram aprovadas. Os relatos apontaram dificuldade de comprovação de renda, negativação, exigência de entrada e adaptação dos sistemas dos bancos. Mesmo com fundo garantidor e alienação fiduciária do veículo, as instituições mantiveram políticas próprias de crédito. O caso mostra que a existência de garantia pública melhora a estrutura de proteção, mas não torna irrelevantes renda, histórico, valor da garantia e custo de recuperação do bem. Na outra ponta, o governo ajustou o Desenrola Adimplentes para tentar melhorar a adesão das instituições. O CMN padronizou a composição das novas operações em 70% de recursos da União e 30% de capital próprio dos bancos. O programa, voltado a trabalhadores informais com atraso de até 90 dias, tinha início operacional previsto para 10 de agosto, portanto depois do período analisado. Até o fechamento da semana, havia sinalização de adesão de parte dos grandes bancos, mas o interesse privado ainda não era uniforme. O desenho é relevante porque obriga o credor a manter exposição própria ao risco, em vez de transferi-lo integralmente ao setor público. Ainda assim, regra publicada e funding disponível não equivalem a crédito efetivamente concedido. A experiência do Move Brasil recomenda acompanhar aprovação, utilização dos recursos e desempenho das safras antes de avaliar o resultado. O Desenrola 2.0, já em operação, oferece um primeiro indicador, mas ainda preliminar. Análise do UBS BB apontou inadimplência de 10% em agosto, abaixo do limite de cobertura de 50% do FGO, e R$ 3,5 bilhões em empréstimos renegociados com garantia do fundo. A própria análise ressalvou que a carteira é recente e que o percentual atual não deve ser tratado como taxa de inadimplência de longo prazo. ## O que a semana revela Os principais acontecimentos mostram um ciclo de crédito em transição, mas não uma reabertura ampla provocada pela queda da Selic. A taxa básica começou a ceder, enquanto famílias permanecem altamente endividadas e bancos aumentam proteção contra perdas. O resultado é uma oferta que continua existindo, porém mais dependente da qualidade do tomador e da arquitetura de redução de risco. Há dois sinais estruturais mais claros. O primeiro é a pouca folga financeira das famílias: mesmo com leve melhora da inadimplência em julho, 82% estavam endividadas e uma parcela relevante comprometia grande parte da renda. O segundo é a preferência explícita dos credores por operações com garantia, fluxo de pagamento observável ou risco compartilhado. Outros sinais ainda precisam de tempo. A queda da inadimplência das famílias foi pequena e não demonstra mudança de tendência por si só. O Desenrola Adimplentes ainda não havia iniciado sua operação no período analisado. O desempenho do Desenrola 2.0 é recente, e o consignado privado ainda precisa separar problemas de integração de deterioração efetiva da carteira. No Move Brasil, a disponibilidade de recursos ainda não se converteu em aprovação ampla. Nas próximas semanas, a qualidade dessa transição poderá ser observada em indicadores concretos: repasse da Selic às taxas finais, composição das novas concessões, evolução das provisões bancárias, inadimplência por faixa de renda, regularização da portabilidade do consignado, adesão ao Desenrola Adimplentes e taxa de aprovação do Move Brasil. A questão central será verificar se a maior seletividade consegue estabilizar as perdas sem transformar proteção de carteira em restrição persistente de acesso ao crédito. ## Notícias que fundamentaram esta análise: - **Capital Política.** “Copom Reduz Taxa Selic para 14% ao Ano em Quarto Corte Consecutivo”. 5 ago. 2026. https://ibegi.org.br/noticia/1037/copom-reduz-taxa-selic-para-14-ao-ano-em-quarto-corte-consecutivo - **CNN Brasil.** “Endividamento familiar sobe 82% e alcança maior nível pelo 6° mês seguido”. 6 ago. 2026. https://ibegi.org.br/noticia/1080/endividamento-familiar-sobe-82-e-alcanca-maior-nivel-pelo-6-mes-seguido - **Folha de S.Paulo.** “Bancos veem piora do crédito e sinalizam aperto nos empréstimos diante da alta dos calotes”. 6 ago. 2026. https://ibegi.org.br/noticia/1076/bancos-veem-piora-do-credito-e-sinalizam-aperto-nos-emprestimos-diante-da-alta-dos-calotes - **Capital Aberto.** “Consignado privado mira nova fase de expansão”. 4 ago. 2026. https://ibegi.org.br/noticia/1032/consignado-privado-mira-nova-fase-de-expansao - **Finsiders Brasil.** “Aposta do Inter no consignado privado se transforma em dor de cabeça”. 7 ago. 2026. https://ibegi.org.br/noticia/1147/aposta-do-inter-no-consignado-privado-se-transforma-em-dor-de-cabeca - **O Globo.** “Receio de calote e dificuldade de comprovar renda travam Move Brasil”. 3 ago. 2026. https://ibegi.org.br/noticia/1002/receio-de-calote-e-dificuldade-de-comprovar-renda-travam-move-brasil - **Valor Econômico.** “CMN padroniza aporte de 30% de capital próprio para participantes do Desenrola Adimplentes”. 7 ago. 2026. https://ibegi.org.br/noticia/1133/cmn-padroniza-aporte-de-30-de-capital-proprio-para-participantes-do-desenrola-adimplentes - **O Globo.** “Desenrola para trabalhadores informais deve iniciar com novas regras na semana que vem: veja o que mudou”. 7 ago. 2026. https://ibegi.org.br/noticia/1179/desenrola-para-trabalhadores-informais-deve-iniciar-com-novas-regras-na-semana-que-vem-veja-o-que-mudou - **InfoMoney.** “UBS BB: Índice de inadimplência do Desenrola 2.0 é elevado, mas bem abaixo do limite”. 7 ago. 2026. https://ibegi.org.br/noticia/1139/ubs-bb-indice-de-inadimplencia-do-desenrola-2-0-e-elevado-mas-bem-abaixo-do-limite
FONTE ORIGINAL:
https://ibegi.org.br/noticia/1200/selic-cai-mas-a-oferta-de-credito-fica-mais-seletiva
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