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Inadimplência aperta a oferta enquanto a demanda por crédito continua forte
Publicado em: 23/08/2026 00:00
**A pesquisa do Banco Central consolidou a passagem do risco observado nas carteiras para critérios mais restritivos de concessão. Ao mesmo tempo, a procura empresarial segue elevada, a reincidência domina as negativações e recuperações judiciais mostram como o aperto alcança empresas dependentes de crédito.** O monitoramento do Observatório IBeGI entre 16 e 22 de agosto de 2026 mostrou de forma mais explícita um passo adicional na deterioração recente do ciclo do crédito: a inadimplência apareceu não apenas como resultado das carteiras, mas como fator que já influencia as condições de oferta. Ao mesmo tempo, a demanda por financiamento permanece elevada, especialmente entre empresas, e o saldo total de crédito ainda aponta expansão. A semana, portanto, não descreve uma interrupção generalizada do crédito, mas um mercado em que a necessidade de recursos e a disposição para assumir risco caminham em direções diferentes. A Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito do Banco Central foi o sinal mais abrangente dessa mudança. As instituições participantes avaliaram que a oferta ficou mais restritiva no segundo trimestre de 2026 na maior parte dos segmentos e indicaram continuidade do aperto no terceiro trimestre. A inadimplência e a menor tolerância ao risco aparecem entre os fatores que condicionam novas concessões, enquanto a procura por crédito se manteve resiliente. Essa tensão conecta os demais fatos da semana. A inadimplência empresarial atingiu recorde em junho; entre consumidores, a reincidência domina as novas negativações; e a recuperação judicial do Grupo Casas Bahia mostrou como custo financeiro, capital de giro, crédito ao consumidor e fragilidades operacionais podem se reforçar quando a liquidez diminui. Na outra ponta, a ampliação de dados do Cadastro Positivo sugere uma tentativa de tornar a seleção de risco mais granular. ## A inadimplência passa da carteira para a política de concessão A Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito ouviu 70 instituições financeiras entre 13 e 31 de julho. Na avaliação dos participantes, as condições de oferta ficaram mais restritivas no segundo trimestre para grandes empresas, micro, pequenas e médias empresas e crédito ao consumo; o crédito habitacional foi a exceção, com estabilidade. Para o terceiro trimestre, a expectativa é de manutenção ou aumento da restrição, inclusive no segmento habitacional. No crédito ao consumo, a inadimplência apareceu como um dos principais fatores de restrição, enquanto a tolerância ao risco também se deteriorou. Para empresas, a inadimplência e as condições gerais da economia doméstica continuaram pesando. O levantamento registra a percepção e as expectativas das instituições participantes e não constitui uma previsão do próprio Banco Central. O significado para o ciclo está na passagem entre duas etapas. Quando a piora da qualidade deixa de ser apenas um dado sobre contratos já concedidos e passa a alterar tolerância a risco, critérios e disponibilidade de novas operações, o estoque problemático começa a afetar a originação seguinte. Isso não implica fechamento uniforme das linhas, mas maior diferenciação entre clientes, garantias, modalidades e finalidades. A própria pesquisa mostra a tensão: a demanda se fortaleceu nos quatro segmentos analisados no segundo trimestre. Entre empresas, a necessidade de capital de giro apareceu como um dos vetores relevantes. O sistema enfrenta simultaneamente pressão para emprestar e razões para selecionar mais. ## A procura cresce justamente onde o caixa está mais pressionado Dados da Serasa Experian reforçam esse quadro. A demanda empresarial por crédito cresceu 9,2% no acumulado de 12 meses até junho de 2026. Micro e pequenas empresas registraram a mesma expansão; serviços avançaram 14% e agropecuária, 13%. Procura maior, porém, não deve ser lida automaticamente como expansão saudável. Para empresas, crédito também financia estoque, fornecedores e capital de giro. Em junho, 9,1 milhões de CNPJs estavam inadimplentes, com R$ 232,9 bilhões em dívidas em atraso, os maiores números da série da Serasa Experian iniciada em 2016. Cerca de 95% das empresas negativadas eram micro e pequenos negócios. Há, portanto, uma assimetria: o crédito continua necessário justamente para uma parcela de tomadores cuja capacidade de pagamento está mais pressionada. A resposta dos bancos pode aparecer em aprovação, garantias, preço, prazo e escolha de clientes, não apenas em volume. A projeção da Febraban ilustra esse ponto. A entidade estimou alta de 0,5% no saldo total de crédito em julho frente a junho e de 9,7% em 12 meses. Trata-se de uma projeção anterior às estatísticas oficiais do Banco Central, e não de resultado confirmado. Ainda assim, ela mostra que maior seletividade e expansão do crédito agregado podem coexistir. Entre pessoas físicas, o dado mais relevante foi a recorrência. Segundo CNDL e SPC Brasil, 86,54% das negativações registradas em julho ocorreram entre consumidores que já haviam aparecido nos cadastros nos 12 meses anteriores. Dentro desse grupo, 66,27% ainda não haviam quitado pendências antigas e 20,26% haviam saído do cadastro, mas voltaram a ser negativados. O intervalo médio entre o vencimento de uma dívida e o surgimento de novas pendências foi de 71,9 dias. O indicador não permite concluir que renegociações anteriores fracassaram, porque não identifica a trajetória individual de cada acordo. Mostra, contudo, que a entrada no atraso é predominantemente recorrente. Para concessão e cobrança, isso aumenta a importância de avaliar capacidade de pagamento depois da regularização, e não apenas a retirada momentânea da restrição. ## No varejo, o aperto financeiro chega à reestruturação O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia transformou essa discussão em um caso empresarial de grande escala. Protocolado em 16 de agosto, o processo envolve cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas à recuperação e abrange a companhia e nove subsidiárias. Aproximadamente R$ 16,4 bilhões são créditos sem garantia real. A empresa vinha de uma recuperação extrajudicial em 2024 e registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, fortemente afetado por itens contábeis não recorrentes. O caso é relevante porque a varejista ocupa os dois lados da relação de crédito. Precisa financiar estoques, fornecedores e capital de giro, ao mesmo tempo em que usa o crediário como instrumento de venda ao consumidor. A inadimplência acima de 90 dias no carnê chegou a 8,9% em junho, alta de 0,5 ponto percentual em um ano. Isso não autoriza atribuir a recuperação judicial apenas aos juros nem transformá-la em diagnóstico de colapso do varejo. O material registra reestruturações anteriores, problemas de geração de caixa, redução de estoques e necessidade de financiamento. A Marabraz oferece um contraste: seu pedido, de cerca de R$ 140 milhões, ocorreu no mesmo ambiente, mas foi agravado por disputa societária que comprometeu imóveis usados como garantias e dificultou a renovação de linhas. Os casos mostram que condições macroeconômicas semelhantes produzem efeitos distintos conforme alavancagem, garantias, modelo de negócios e governança. A recuperação judicial reorganiza o passivo e cria espaço de negociação; não demonstra, por si só, recuperação da capacidade recorrente de gerar caixa. ## Mais informação ganha valor quando o corte linear deixa de funcionar A semana também trouxe um movimento em direção oposta ao fechamento indiscriminado de crédito. Segundo a Associação Nacional dos Birôs de Crédito, a incorporação de dados de telecomunicações ao Cadastro Positivo deu visibilidade a 17,5 milhões de consumidores e empresas que não apareciam nos registros do sistema financeiro. Do grupo identificado, 95% são pessoas físicas. A entidade afirmou ainda que 82% das pessoas analisadas após a entrada no Cadastro Positivo tiveram aumento na pontuação de crédito. Esses números foram apresentados pela própria ANBC e não equivalem a aprovação de empréstimos, redução de juros ou aumento efetivo de limite. Seu significado é informacional. Em um ambiente no qual os credores declaram menor tolerância ao risco, ampliar histórico de pagamentos pode ajudar a distinguir falta de informação de risco elevado, especialmente para pessoas com pouca relação bancária formal. Mais dados não eliminam renda insuficiente, endividamento excessivo ou atrasos recorrentes, mas podem reduzir decisões baseadas em ausência de histórico. O movimento sugere duas respostas simultâneas: critérios mais duros para exposições percebidas como frágeis e busca por informação adicional para preservar concessões onde o risco possa ser melhor identificado. ## O que a semana revela Os acontecimentos de 16 a 22 de agosto mostram um ciclo em que a deterioração da qualidade começa a influenciar de forma mais clara a oferta seguinte. A pesquisa do Banco Central indica critérios mais restritivos e menor tolerância ao risco; a inadimplência empresarial recorde e a elevada reincidência entre consumidores ajudam a explicar essa postura. Ao mesmo tempo, a demanda empresarial continua crescendo e a Febraban ainda projeta expansão do saldo de crédito. A principal leitura não é de escassez uniforme, mas de maior distância entre necessidade de financiamento e apetite ao risco. Essa distância pode ser administrada com garantias, dados, preços e seleção de clientes; quando se combina com alavancagem, queda de liquidez ou fragilidades operacionais, pode terminar em reestruturação, como mostrou o caso Casas Bahia. A Marabraz reforça que fatores específicos de governança e garantias também precisam ser separados do ambiente macroeconômico. Alguns sinais já são concretos: o recorde da inadimplência empresarial, a reincidência das negativações e a avaliação de maior restrição no segundo trimestre. Outros ainda são preliminares: as expectativas das instituições para o terceiro trimestre, a projeção da Febraban para julho e o efeito da ampliação de dados do Cadastro Positivo sobre concessões efetivas. Nas próximas semanas, será importante observar se a maior seletividade aparecerá nas estatísticas oficiais de novas concessões, em que segmentos a demanda permanecerá mais forte e se renegociações e reestruturações conseguem devolver capacidade de pagamento — não apenas reorganizar vencimentos. ## Notícias que fundamentaram esta análise As notícias que fundamentaram esta análise estão disponíveis no [Observatório IBeGI](https://ibegi.org.br/observatorio.xhtml). ## Curadoria diária do ciclo do crédito O Observatório combina Big Data Discovery, inteligência artificial e supervisão humana para monitorar centenas de fontes jornalísticas e institucionais, processar seus conteúdos e identificar notícias e sinais relevantes para o ciclo do crédito.
FONTE ORIGINAL:
https://ibegi.org.br/noticia/1903/inadimplencia-aperta-a-oferta-enquanto-a-demanda-por-credito-continua-forte
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