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Risco de crédito começa a mudar oferta, regulação e renegociação
Publicado em: 14/09/2026 00:00
**Com endividamento ainda elevado, o Banco Central estuda medidas para linhas mais arriscadas; varejo e agro já mostram maior seletividade, enquanto a renegociação passa a seguir caminhos mais segmentados.** O monitoramento do Observatório IBeGI entre 6 e 12 de setembro mostra uma mudança de ênfase no ciclo do crédito. O problema já não aparece apenas no estoque de inadimplência ou na etapa de recuperação. Nesta semana, os sinais mais relevantes apontaram para uma transmissão do risco em direção à origem do ciclo: credores começam a restringir ou redesenhar a oferta, o Banco Central estuda medidas prudenciais e de conduta, e mecanismos de renegociação passam a ser mais segmentados. Os indicadores de famílias ajudam a dimensionar essa pressão, mas não mostram deterioração uniforme. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, registrou 82% das famílias com dívidas a vencer em agosto e 29,9% com contas em atraso. A piora concentrou-se especialmente nas famílias com renda de até três salários mínimos. Ao mesmo tempo, a CNDL e o SPC Brasil apontaram 73,71 milhões de consumidores inadimplentes em agosto, com queda mensal de 1,89% no número de devedores. Os levantamentos medem conceitos diferentes e não devem ser comparados diretamente. Em conjunto, porém, mostram endividamento ainda elevado, com pressões distintas entre grupos e tipos de dívida. Na edição anterior, a leitura editorial já apontava que seleção e recuperação ganhavam peso. O avanço desta semana está em outra etapa: há evidências de que a percepção de risco começa a modificar a própria disponibilidade do crédito e a forma como ele é oferecido. Isso aparece no varejo, é particularmente visível no crédito rural e também começa a orientar o debate regulatório. ## Endividamento permanece alto, mas a piora não é uniforme A Peic, divulgada pela CNC, mostra que as famílias com renda mensal de até três salários mínimos chegaram a 85,1% de endividamento em agosto. Esse foi o único grupo em que a parcela de famílias com dívidas em atraso aumentou no mês, de 38,5% em julho para 38,8% em agosto. No conjunto das famílias, a inadimplência avançou apenas 0,1 ponto percentual, para 29,9%, enquanto o endividamento permaneceu em 82%. O indicador da CNDL e do SPC Brasil acrescenta outra perspectiva. Em agosto, 73,71 milhões de consumidores tinham contas em atraso, o equivalente a 43,90% da população adulta. O número de devedores recuou 1,89% em relação a julho, mas as dívidas com quatro a cinco anos de atraso cresceram 37,73% na comparação anual. Em média, cada consumidor inadimplente devia R$ 5.190,28 e mantinha débitos com 2,34 empresas credoras. A combinação impede uma leitura linear. Não há base para afirmar que todos os indicadores estejam piorando simultaneamente. Há pequena melhora mensal em um levantamento e, ao mesmo tempo, maior pressão na baixa renda e crescimento das dívidas antigas. Para a gestão de crédito, isso reforça a necessidade de segmentar risco por renda, tempo de atraso e capacidade de pagamento. ## Risco começa a aparecer na oferta e no desenho regulatório No varejo, a mudança já aparece na oferta. Levantamento citado no dossiê indica que grandes redes reduziram o crédito ao consumidor no primeiro semestre de 2026. A carteira dessas empresas somou R$ 40 bilhões e recuou 1,2% em termos reais. Ao mesmo tempo, aumentou o atraso nas primeiras parcelas dos financiamentos, sinal de dificuldade de pagamento logo no início de contratos recém-originados. Esse dado não autoriza concluir que exista contração generalizada do crédito no país: refere-se a grandes varejistas e a uma carteira específica. Ainda assim, conecta a qualidade recente da originação à decisão de reduzir exposição. A deterioração deixa de ser apenas uma questão de cobrança futura e passa a influenciar quanto e para quem se concede hoje. O Banco Central também sinalizou que estuda respostas voltadas às modalidades mais caras. Entre as alternativas está a elevação do Fator de Ponderação de Risco para operações de cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia. Uma mudança desse tipo exigiria mais capital das instituições para sustentar o mesmo volume de operações e poderia afetar preço ou oferta. Trata-se, porém, de medida em estudo, não de regra já implementada. Em paralelo, o BC prepara normas para a oferta digital de crédito, com atenção a propostas pré-aprovadas de alto valor, transparência e desenho das interfaces nos aplicativos. Os dois movimentos ainda são preliminares, mas apontam na mesma direção: o endividamento começa a ser tratado também antes do atraso, por meio de requisitos prudenciais e regras sobre como o crédito é apresentado ao consumidor. ## No agro, a restrição de crédito já é mensurável O crédito rural oferece o sinal mais concreto de retração da semana. Dados do Banco Central divulgados pela Farsul indicam que a área custeada por financiamento rural caiu 25,8% em 12 meses, de 34,2 milhões de hectares em julho de 2025 para 25,4 milhões em julho de 2026. No Rio Grande do Sul, a retração da área financiada foi de 29,3%, enquanto o valor contratado caiu 18,3%, para R$ 23,1 bilhões. A mesma fonte mostra que o conjunto formado por inadimplência, prorrogações e renegociações passou de 11,8% das operações em julho de 2024 para 23,5% em julho de 2026. O percentual não mede inadimplência isoladamente; reúne diferentes formas de deterioração ou reestruturação da carteira. No Rio Grande do Sul, esse conjunto chegou a 41,3%. O material associa a retração a juros elevados, deterioração da carteira e maior cautela das instituições sob regras de provisionamento prospectivo. Não é possível separar a contribuição exata de cada fator. O que já pode ser observado é o resultado: menos área financiada e menor volume de crédito em um segmento no qual o risco acumulado aumentou. Ao mesmo tempo, o Conselho Monetário Nacional ampliou as possibilidades de composição de dívidas rurais para produtores e cooperativas afetados por eventos climáticos ou por entraves operacionais nas regras anteriores. A medida ampliou o enquadramento de certas operações e permitiu que bancos utilizem recursos livres em situações não atendidas pela regulamentação original. A contratação, contudo, continua sujeita à análise de crédito, nova classificação de risco e eventual reavaliação de garantias. A coexistência dos movimentos é relevante. O mecanismo de renegociação tenta preservar operações potencialmente recuperáveis, enquanto a concessão permanece sujeita a critérios de risco. Renegociar e voltar a conceder não são a mesma decisão. ## Renegociação fica mais segmentada No crédito às famílias, a semana trouxe um fechamento institucional. A Medida Provisória que sustentava o Novo Desenrola Brasil havia perdido validade em 31 de agosto, e a formalização do encerramento foi publicada no Diário Oficial em 8 de setembro. Os acordos celebrados durante sua vigência permanecem válidos, salvo eventual tratamento diferente pelo Congresso. O Desenrola Adimplentes, baseado em outra medida provisória, não se confunde com esse programa e permanece em vigor segundo o material. Um estudo divulgado na semana acrescenta contexto. Economistas da UFRJ e da FGV analisaram a primeira edição do Desenrola Brasil e encontraram redução temporária da inadimplência, com retorno dos níveis para perto do patamar anterior em aproximadamente 18 meses. O levantamento também indicou efeito menor para trabalhadores informais. Esses resultados não permitem inferir que o programa encerrado agora teria o mesmo comportamento, porque são iniciativas e períodos diferentes. O ponto comum está na diferença entre renegociar um estoque e restabelecer de forma duradoura a capacidade de pagamento. Enquanto um programa amplo para consumidores se encerra, o crédito rural recebe novas possibilidades específicas de composição. Isso não prova uma coordenação única de política pública, mas mostra mecanismos cada vez mais condicionados ao tipo de dívida, ao perfil do tomador e à possibilidade de reclassificar o risco. ## O que a semana revela Os acontecimentos de 6 a 12 de setembro revelam um ciclo do crédito em que o risco começa a retroagir sobre a própria concessão. O endividamento das famílias continua elevado e mais pressionado na baixa renda, mas os indicadores não caminham todos na mesma direção. Essa heterogeneidade favorece respostas seletivas, e não uma leitura de deterioração uniforme. Na oferta, já há sinais mensuráveis de cautela. Grandes varejistas reduziram suas carteiras em termos reais, e o crédito rural apresentou retração expressiva na área financiada. Na regulação, o Banco Central estuda elevar exigências de capital para modalidades mais arriscadas e prepara regras para a oferta digital. Essas medidas ainda não devem ser tratadas como efeitos consumados, mas mostram que a discussão deixou de se concentrar exclusivamente na cobrança após o atraso. Na renegociação, a semana reforçou a diferença entre aliviar uma obrigação e restaurar capacidade de pagamento. O encerramento formal do Novo Desenrola ocorre ao mesmo tempo em que o CMN amplia instrumentos específicos para dívidas rurais. Em ambos os casos, a qualidade do resultado dependerá menos do número de contratos renegociados e mais da capacidade dos devedores de permanecer adimplentes depois da reestruturação. A principal mudança em relação às semanas anteriores é que o risco já não aparece somente como consequência do crédito concedido. Ele passa a influenciar o volume ofertado, os requisitos prudenciais, o desenho comercial e as condições de renegociação. Nas próximas semanas, será relevante observar se as propostas do Banco Central se transformam em normas, como evoluem taxas, limites e aprovações nas linhas sem garantia, se a retração do crédito rural se mantém e quanto das renegociações consegue retornar à normalidade sem novo atraso. ## Notícias que fundamentaram esta análise As notícias que fundamentaram esta análise estão disponíveis no [Observatório IBeGI](https://ibegi.org.br/observatorio.xhtml). ## Curadoria diária do ciclo do crédito O Observatório combina Big Data Discovery, inteligência artificial e supervisão humana para monitorar centenas de fontes jornalísticas e institucionais, processar seus conteúdos e identificar notícias e sinais relevantes para o ciclo do crédito.
FONTE ORIGINAL:
https://ibegi.org.br/noticia/3004/risco-de-credito-comeca-a-mudar-oferta-regulacao-e-renegociacao
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