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Selic cai, mas o risco acumulado ainda limita o alívio no crédito
Publicado em: 21/09/2026 00:00
**O corte da taxa básica para 13,75% abre uma fase de menor aperto monetário, mas a procura por crédito cresce entre consumidores com pouca folga financeira, a inadimplência empresarial permanece em níveis recordes e a renegociação avança sem eliminar o estoque elevado de atrasos.** O monitoramento do Observatório IBeGI entre 13 e 19 de setembro mostra um ciclo do crédito entrando em uma fase de transição. O fato novo mais claro foi a redução da Selic para 13,75% ao ano, o quinto corte consecutivo. A direção da política monetária mudou, mas os indicadores acompanhados ao longo da semana mostram que famílias, empresas e carteiras de crédito ainda carregam um estoque de risco formado sob juros mais altos. Na edição anterior, os sinais centrais estavam na maior seletividade da oferta e na segmentação da renegociação. Nesta, entra um vetor novo: o custo básico do dinheiro começa a ceder enquanto os estoques de atraso seguem elevados. Essa diferença de velocidade é a principal leitura do período. De um lado, o custo básico do dinheiro começa a ceder. De outro, a busca por crédito cresce com força justamente em segmentos de menor renda, milhões de consumidores acumulam atrasos simultaneamente em instituições tradicionais e fintechs, e as empresas registram níveis elevados de inadimplência. Na recuperação, o número de acordos cresce enquanto a expansão do contingente de negativados perde ritmo. Os movimentos mostram etapas diferentes do mesmo ciclo. A política monetária afeta as condições futuras do crédito; a inadimplência reflete contratos e decisões acumuladas; e a renegociação tenta reorganizar dívidas já vencidas. A semana, portanto, foi menos sobre uma melhora consolidada e mais sobre a distância entre o início do alívio monetário e a recuperação efetiva da capacidade de pagamento. ## A Selic muda de direção, mas o crédito ainda carrega o risco acumulado Em 16 de setembro, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte consecutivo. Segundo o material acompanhado pelo Observatório, o Copom manteve cautela sobre os próximos passos e condicionou a extensão do ciclo de flexibilização à evolução da inflação e da atividade. Para o crédito, a mudança é relevante, mas não produz repasse automático. As taxas cobradas de consumidores e empresas dependem também de inadimplência esperada, garantias, prazo, custos operacionais e política de risco das instituições. Contratos existentes tampouco são reprecificados de forma uniforme apenas porque a taxa básica caiu. A defasagem aparece nos dados reunidos durante a semana. Em julho, a inadimplência da carteira total do Sistema Financeiro Nacional chegou a 4,9%, segundo o material que acompanhou a decisão do Copom. O corte da Selic é um fato consumado; a redução do custo efetivo do crédito, dos spreads e da inadimplência ainda não é. O ponto relevante para os próximos meses será observar essa transmissão. Enquanto a qualidade das carteiras permanecer pressionada, ela continuará influenciando quanto, para quem e a que preço as instituições estarão dispostas a emprestar. ## Mais procura por crédito justamente onde há menos folga O Indicador de Demanda dos Consumidores por Crédito da Serasa Experian mostrou crescimento de 17,1% no acumulado de 12 meses até julho. A expansão foi desigual por faixa de renda. Entre consumidores que recebem de um a dois salários mínimos, a procura aumentou 38,8%. Para quem recebe até um salário mínimo, a alta foi de 16,7%, enquanto a faixa de dois a cinco salários mínimos apresentou recuo de 0,6%. O indicador mede consultas de CPF realizadas em processos de avaliação de crédito. Portanto, registra intenção ou busca por recursos, e não aprovação ou contratação efetiva. Ainda assim, a composição da demanda é relevante porque coincide com menor folga orçamentária nas faixas inferiores de renda. O mesmo levantamento estima que contas básicas, fatura de cartão e pagamentos de dívidas consomem, em média, 74,6% da renda dos consumidores analisados. Entre aqueles com renda de um a dois salários mínimos, o comprometimento se aproxima de 88%. Esse conceito não é o mesmo utilizado pelo Banco Central para medir o serviço da dívida e não deve ser comparado diretamente com ele. Outra pesquisa da Serasa Experian acrescentou uma dimensão importante: 8,92 milhões de brasileiros estavam simultaneamente inadimplentes com instituições financeiras tradicionais e fintechs em julho, aumento de 355,1% em relação a dezembro de 2019. Nesse grupo, a dívida média se aproximava de R$ 8 mil, e a quantidade de pendências não pagas era aproximadamente o dobro da observada entre consumidores inadimplentes apenas no sistema tradicional. O dado não prova que as fintechs tenham causado a deterioração. Ele mostra que a ampliação das fontes de crédito também tornou mais comum a sobreposição de relações financeiras. Para análise de risco, isso reforça a importância de enxergar a exposição total do consumidor, e não apenas seu histórico dentro de uma instituição. ## Nas empresas, o atraso também ganha escala A pressão não está restrita às famílias. O Boletim Econômico de setembro da Serasa Experian informou que 9,2 milhões de CNPJs estavam inadimplentes em julho, com R$ 238,6 bilhões em dívidas negativadas. Micro e pequenas empresas concentravam a maior parte desse universo. Um levantamento divulgado pela Fecomércio de São Paulo oferece outra medida do problema. No segundo trimestre de 2026, o crédito empresarial em atraso chegou a R$ 86,1 bilhões, aumento de 24% em um ano. No mesmo período, o volume de crédito havia avançado 2,3%, enquanto a parcela inadimplente subiu de 2,7% para 3,3%. Pequenas e médias empresas respondiam por cerca de três quartos do valor vencido. Os indicadores não medem exatamente a mesma coisa. O dado da Serasa considera empresas negativadas e o estoque de dívidas registrado em sua base; o levantamento da Fecomércio acompanha crédito empresarial em atraso. A convergência, entretanto, mostra que a deterioração não se explica apenas por maior concessão. Para credores empresariais, o efeito pode se espalhar por fornecedores, recebíveis e capital de giro. Também aumenta a importância da concentração de exposição: o mesmo percentual médio de inadimplência produz consequências diferentes quando o atraso está pulverizado ou concentrado em poucos devedores relevantes. A redução da Selic tende a atuar sobre o custo financeiro ao longo do tempo, mas os dados desta semana mostram que parte do setor empresarial ainda absorve o efeito defasado do período anterior de juros mais altos. ## Renegociação acelera enquanto a inadimplência perde velocidade A frente de recuperação trouxe o sinal mais construtivo da semana. O Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa registrou 83,98 milhões de consumidores negativados em agosto. O número ainda é elevado, mas cresceu apenas 0,06% em relação a julho, o menor avanço mensal observado em 2026 segundo o levantamento. Ao mesmo tempo, foram formalizados 19,7 milhões de acordos entre maio e agosto, alta de 36% em comparação com o mesmo período de 2025. O número de consumidores que buscaram regularizar pendências passou de 7,1 milhões para 9,4 milhões na comparação apresentada pela Serasa. A coincidência entre mais acordos e menor expansão da inadimplência é relevante, mas não permite concluir que uma variável tenha causado a outra. Renegociar altera a condição contratual da dívida; a recuperação só se consolida quando o novo fluxo de pagamentos é sustentado ao longo do tempo. Esse ponto ganha importância porque a procura por crédito continua aumentando entre consumidores com orçamento comprimido. Se a renegociação apenas reorganizar parcelas sem recompor capacidade de pagamento, o risco de reincidência permanece. Se a desaceleração dos novos negativados persistir enquanto os acordos seguem adimplentes, o movimento poderá indicar melhora mais consistente. Os dados desta semana ainda não permitem separar essas possibilidades. ## O que a semana revela Os acontecimentos de 13 a 19 de setembro mostram um ciclo do crédito marcado por uma defasagem entre política monetária e balanço financeiro. A Selic já iniciou uma trajetória de redução, mas consumidores e empresas ainda carregam níveis elevados de endividamento e inadimplência formados no período anterior. A melhora das condições monetárias, portanto, antecede a normalização dos balanços. Nas famílias, a demanda por crédito cresce de forma importante em faixas de renda com pouca margem orçamentária, enquanto a inadimplência simultânea em bancos e fintechs evidencia relações financeiras mais sobrepostas. Nas empresas, diferentes métricas apontam estoque elevado de atrasos, com peso particularmente grande entre negócios menores. A recuperação de crédito ganhou intensidade. O avanço de 36% nas renegociações ocorreu ao mesmo tempo em que o número de negativados praticamente estabilizou de julho para agosto. É um sinal relevante, mas ainda não uma evidência de reversão estrutural. A próxima etapa será definida pela transmissão: se os cortes da Selic chegam às taxas efetivamente oferecidas, se a demanda de menor renda resulta em concessões sustentáveis, se a inadimplência empresarial começa a ceder e se os acordos permanecem adimplentes depois dos primeiros pagamentos. A semana abriu uma possibilidade de alívio no preço do dinheiro; os dados de carteira mostrarão a velocidade com que esse alívio chega ao risco. ## Notícias que fundamentaram esta análise As notícias que fundamentaram esta análise estão disponíveis no [Observatório IBeGI](https://ibegi.org.br/observatorio.xhtml). ## Curadoria diária do ciclo do crédito O Observatório combina Big Data Discovery, inteligência artificial e supervisão humana para monitorar centenas de fontes jornalísticas e institucionais, processar seus conteúdos e identificar notícias e sinais relevantes para o ciclo do crédito.
FONTE ORIGINAL:
https://ibegi.org.br/noticia/3360/selic-cai-mas-o-risco-acumulado-ainda-limita-o-alivio-no-credito
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